
Yoshitaka Amano
O segreto para criar uma ilustração fascinante, direto da boca de um mestre…
Em sua trajetória pessoal para se tornar um mangaká, Eiichiro Oda ficou fascinado pela beleza da arte de Yoshitaka Amano
Nascido em 1952, na cidade de Shizuoka. Ele criou personagens e designs visuais para uma variedade de animes e games, como Gatchaman, Time Bokan e Final Fantasy assim como ilustrações para diversos livros de fantasia. Ele também se mantém muito ativo no mundo das artes plásticas.. Depois de conhecer boa parte do trabalho de Oda, o mestre Amano revela o segredo da vivacidade de sua arte, como somente o olhar que só um artista e ilustrador poderia ter!
Moderador: Vamos começar esta entrevista entre o mestre Oda e uma de suas maiores inspirações, Yoshitaka Amano Sensei!
Oda: Quando eu era criança, assistia à série Time Bokan
Uma série animada que começou em 1975. É considerada um clássico dos animes de comédia. na TV, e pelo que sei você trabalhou nela como animador. Você tem uma trajetória pessoal incrível. Mas só me tornei seu fã quando tinha por volta de vinte anos.
Amano: Ah, entendo.
Oda: Meu interesse começou quando um amigo me convidou para visitar uma exposição sua. Fiquei impressionado com a beleza dos traços — você fazia obras enormes com linhas extremamente delicadas e precisas. Nunca tinha visto uma arte com uma beleza tão refinada. Usei todo o dinheiro que tinha comigo para comprar suas coletâneas. Adoro suas ilustrações de quimonos.
Amano: Obrigado (risos).
Oda: Tudo que você desenha hoje em dia é em grandes formatos?
Amano: As obras grandes são apenas para exposições. Normalmente, uso papel próprio para impressão, então o tamanho costuma ser adaptado ao livro.
Oda: Quando vemos uma obra pessoalmente, percebemos vários detalhes das cores que não aparecem na impressão. É algo muito impactante. Por isso, quando olho seus livros de arte, acabo imaginando a obra original.
Amano: Os editores costumam me dizer: “Essa cor não vai aparecer na impressão, então use outra tinta” (risos). Ou “É só desenhar menor”.
Oda: Essa foi a razão para fazer litografias, assim você poderia reproduzir a imagem original com mais fidelidade?
Amano: Exatamente. Até aquele momento, minha arte só chegava ao público por meio de reproduções em livros. Mas, com uma litografia, ela fica igual à maneira como a pintei. Por isso sempre quis experimentar.
Oda: Uma litografia é um tipo de impressão?
Amano: Isso mesmo. É um método que surgiu um pouco antes das técnicas de impressão modernas que usamos hoje. Eu gostava muito das obras de LautrecHenri de Toulouse-Lautrec, um artista francês do final do século XIX. Ele é conhecido por seus muitos posters em litografia. Ele amava dançarinas e outras mulheres das noites, que com frequência apareciam em seus trabalhos. e Mucha
Alphonse Mucha, um artista e designer europeu que trabalhou no final do século XIX e início do XX. Ele é conhecido por seus impressiontes posters de arte Nouveau e livros de ilustrações, geralmente contendo lindas mulheres., que faziam litografias. Então fui ao mesmo estúdio em Paris que eles usavam.
Oda: Que incrível!
Amano: Lá, o artista pinta cada cor separadamente, e o litógrafo as imprime no suporte, uma de cada vez, até que a obra esteja concluída. Tudo é feito à mão. Assim, pude produzir imagens exatamente da mesma maneira que eles faziam no século XIX.
Oda: Quando construí minha casa, meu sonho era comprar uma de suas enormes litografias e deixá-la à mostra. Ainda não consegui fazer isso..
Amano: Estarei por aqui quando você estiver pronto.
Oda: Sempre quis lhe perguntar uma coisa: houve uma exposição sua na Alemanha em que você pintou os olhos de Gatchaman ali mesmo, na hora. Você tem todas aquelas obras coloridas que passa tanto tempo fazendo, por que dessa vez você simplesmente resolveu desenhar um close de um olho?
Amano: Sabe, não tenho muita certeza do motivo.
Oda: Nem você sabe? (risos) Acho que isso acaba entrando na categoria de “arte”, não é?
Amano: Acho que sim.
Oda: (risos)
Amano: Acho que arte significa fazer algo que ninguém nunca fez antes. Seja qual for o método que eu esteja usando, continuo fazendo tudo à mão, do jeito que é passado de geração em geração. Então Andy WarholUm artista americano que surgiu nos anos 60. Ele produziu peças de arte em massa, baseados em latas de sopa, fotografia de famosos e personagens de quadrinhos. Seu estilo começou a ser associado com o termo 'pop art' o que mudou completamente o conceito do valor da arte. apareceu e decidiu criar arte manipulando elementos que já existiam. Era algo novo; ninguém tinha feito aquilo antes. Acho que provavelmente é isso que a arte significa. Às vezes, simplesmente colocar um objeto em algum lugar pode ser arte. No fim das contas, acho que nem eu entendo muito bem. (risos)
Oda: Eu realmente não entendo o que faz Warhol ser tão genial.
Amano: Mas, à primeira vista, parece bonito, não é?
Oda: Hmmm. Não acho bonito; acho que é trapacear! É tipo: “Tudo o que você fez foi tirar uma fotocópia e mudar a paleta de cores!”
Amano: É verdade, é trapaça. (risos)
Oda: Também não entendia PicassoUm dos grandes artistas do século XX. Ele começou com retratos realistas em paletas azuis, antes de explodir em formas de pintar extremamente originais. Seu estilo mudou rapidamente durante sua vida, eventualmente se transformando em surrealismo. Ele foi um ousado pioneiro em novas técnicas, e um dos artistas definodres do século XX. no começo, mas, quando descobri que ele também sabia pintar de maneira tradicional, comecei a reconsiderar. Para mim, um artista precisa ter a capacidade de reproduzir com as próprias mãos aquilo que vê. Caso contrário, não consigo chamar alguém de artista.
Amano: Entendo.
Oda: Sua arte é boa porque resulta da combinação de experiência com uma sólida base técnica. Acho que é por isso que me sinto tranquilo sabendo que sempre posso apreciar suas obras.
Moderador: Agora vamos inverter os papéis. Amano Sensei, o que você pensou quando viu a arte do Oda Sensei?
Amano: Sua arte é muito divertida, senhor Oda. O que percebi ao olhar seu livro de arte foi que sua perspectiva está contida dentro da própria imagem. É uma habilidade incrível. (Abre Color Walk)
. A maneira como os personagens se sobrepõem, o equilíbrio das poses, tudo tem uma profundidade e uma tridimensionalidade únicas. É como um livro pop-up, em que os personagens saltam em direção ao leitor. Não vemos esse tipo de composição em outras obras.
Oda: Será que é porque chego perto demais da página? (risos) Nunca me concentrei conscientemente nesse tipo de coisa, mas acho que faz parte da minha expressão artística. Fico me perguntando quando comecei a pensar assim. Tenho muito cuidado com as distâncias.
Amano: Ah, sim, entendo.
Oda: Às vezes, nem consigo me explicar para os assistentes que trabalham comigo há mais tempo. A distância é algo muito subjetivo, então é realmente difícil descrevê-la para os outros. Quando tentamos acertar a perspectiva com precisão, ela nunca fica exatamente certa.
Amano: Não importa como, você está mentindo. (risos)
Oda: Não consigo calcular e medir com precisão os tamanhos e as proporções corretas dos objetos, então só posso confiar na minha própria sensibilidade. E quando tentamos dar vida a uma imagem que temos na cabeça, precisamos ser flexíveis e criativos. Se não, acho que não dá para desenhar coisas assim.
Amano: Essa noção de distância realmente dá força à imagem. No mangá, é possível senti-la no quadro inteiro. Percebo isso no seu trabalho, na maneira como você cria essa sensação de distância.
Oda: Para mim ainda é um mistério.
Amano: (Olhando para esta ilustração)
. Esta aqui é muito legal.
Oda: Obrigado! Uau, fico muito feliz em ouvir isso! Aliás, temos muitas obras que parecem quase rascunhos, como se você tivesse ficado com a primeira versão. Eu me identifico com essa prática de não levar o desenho até a última etapa. Quando você desenha com uma onda de emoção, você se sente bem vendo o resultado final, mesmo que as bordas fiquem um pouco irregulares.
Amano: Sim, da Vinci fazia algo parecido. Você olhava os esboços iniciais e eles eram incrivelmente detalhados, mas a pintura a óleo final acaba não ficando tão nítida quanto o esboço. É assim que conseguimos enxergar o ponto de partida. Comigo funciona da mesma maneira. Experimento várias coisas e depois vou raspando até restarem apenas linhas simples. Mas essas linhas contêm tudo aquilo que veio antes.
Oda: Nesse ponto, tudo depende da intuição pessoal, então é muito difícil fazer comparações.
Amano: Fico me perguntando se as pessoas simplesmente não gostam de uma arte muito carregada e intensa, na qual é possível perceber a angústia envolvida. Hoje em dia, sinto uma conexão muito mais forte com obras desenhadas de maneira leve.
Oda: No caso dos mangás shonen, acredito que as crianças gostam de ver desenhos elaborados, que levam tempo. Por isso, acho que colocar o máximo de esforço possível é o que conquista os leitores. Foi isso que meu mentor me ensinou: “Quanto mais linhas você colocar no desenho, maior será a chance de o leitor apreciar”. Essa lição está na minha cabeça desde então.
Amano: Talvez seja possível dizer o mesmo sobre ilustração em geral também.
Oda: Mas o que você disse sobre querer que as pessoas vejam uma obra descontraída também é algo que sinto. Por mais difícil que seja o processo para mim, quero que as pessoas olhem para o resultado e pensem: “É só aquele cara aleatório desenhando essas coisas”.
Moderador: Há também algumas obras neste volume que parecem ter sido feitas muito rapidamente. Você fez essa aqui
só por diversão?
Oda: Desenhei essa porque o pessoal da redação disse que queria algo parecido com as ilustrações recortadas das latas de café da marca BOSS. Pensei, não vai parecer tão impressionante porque o Luffy não tem bigode (risos).
Moderador: As ilustrações que você faz para as capas da Shonen Jump são pedidas pela redação?
Oda: Para as capas da Jump eu recebo instruções como: “Queremos um tema de festival esportivo escolar, já que estamos no outono”. Mas as pessoas que fazem os pedidos não são artistas profissionais, então às vezes recebemos exemplos péssimos que nos fazem pensar: “Que diabos isso quer dizer?” (risos). Então tenho certa liberdade para trabalhar dentro dos limites do tema. Sempre tenho opções.
Amano: Ah, então é assim que funciona. Eles dão a ideia geral e indicam onde ficará o logotipo?
Oda: Isso mesmo. Já as ilustrações coloridas de página dupla, as capas dos capítulos e as capas dos volumes são praticamente por minha conta.
Amano: Todos os seus personagens têm uma energia incrível. São muito intensos.
Oda: Às vezes, nem eu consigo acompanhá-los. Preciso dizer a mim mesmo: “Amanhã vou acordar e desenhar isso quando o sol estiver nascendo”.
Amano: Dá para sentir esse movimento intenso no seu trabalho. Te dá energia só de ler.
Oda: Mesmo quando era estudante, eu sempre pensava: “Desde que eu tire nota A em artes, nada mais importa” (risos). Então, quando se trata da história, sinto que, se conseguir incluir pelo menos uma cena realmente legal, consigo dar conta do resto. Quanto ao restante, se eu estiver me divertindo, então tenho esperanças que os leitores também. Na verdade, não levo tudo tão a sério a menos que eu precise.
Amano: As ideias para os personagens simplesmente surgem na sua cabeça?
Oda: Quanto ao grupo principal, sempre soube quantos personagens haveria. Sinceramente, achei que levaria um ano e meio para reunir todos, mas já se passaram oito anos e ainda não terminei.
Amano: Ainda não são todos? (risos)
Oda: Mas, na hora de apresentá-los, minha sensibilidade já é diferente daquela que eu tinha quando comecei a série, e os tempos mudam, então fui alterando aos poucos algumas coisas em relação ao plano original, pouco a pouco.
Amano: E você não se prende a nenhuma época específica?
Oda: Tento evitar que a história fique em um período específico. Por isso, nunca incluo referências às novidades do momento. Não quero que exista nada que permita identificar o ano em que desenhei determinada coisa. Desde que eu use apenas os clichês clássicos e as ideias que vêm de mim mesmo, acho que a obra não envelhecerá tão mal.
Amano: Se você pretende incluir algo novo, primeiro precisa digerir aquilo. A moda muda todo ano, e algo se for de dois anos atrás já está completamente fora de moda. Mas, no mangá, você tem os dois caminhos: coisas que nunca mudam e outras que estão sempre mudando. Como você equilibra essas duas coisas?
Oda: Acho que tudo se resume ao gosto do autor. E uma boa dose de sorte.
Amano: Entendo.
Oda: E nunca sabemos se aquilo que criamos continuará relevante no futuro. Mas tenho muita confiança de que minha sensibilidade é normal.
Amano: Entendo o que quer dizer. Isso é muito importante. (risos)
Oda: As coisas fazem sucesso porque todo mundo acha que são boas. Então, dessa forma, sei que aquilo de que gosto vai se tornar popular.
Amano: Muitas vezes, aquilo que vemos quando olhamos com total sinceridade acaba sendo a vanguarda. Se você olha para uma flor e pensa honestamente “Que linda”, provavelmente não estará errado nessa avaliação.
Moderador: Vamos encerrar esta conversa com algumas palavras de incentivo um para o outro!
Oda: Quando contei às pessoas sobre esta entrevista, elas ficaram surpresas ao saber que eu era fã do seu trabalho. Provavelmente é porque não dá para perceber sua influência na minha arte. E eu jamais ousaria tentar imitá-la (risos). Só quero continuar admirando as obras que você produz. Por favor, continue fazendo o que faz.
Amano: Acho que um artista de mangá é como um atleta. Você precisa cuidar muito bem dos seus reflexos. Você parece ter reflexos fantásticos, Oda, então não caia nas tentações do mundo real e continue encontrando maneiras de criar histórias cheias de energia!
Entrevista traduzida do texto originalmente publicada em One Piece Color Walk Compendium: East Blue to Skypiea Volume 1