Taiyo Matsumoto


Dois sóis se encontram no céu neste momento!

Eiichiro Oda entrevista Taiyo MatsumotoTaiyo MatsumotoNascido em Tokyo, 1967. Ganhou um prêmio por sua história “Straight” em um concurso de mangá em 1987. Depois disso, desenhou séries como Zero, Hanaotoko, Tekkon Kinkreet, Ping Pong, No. 5, e Takemitsu Zamurai (escrito por Kazunari Eifuku). Muitos dos seus mangás foram transformados em animes e filmes live-actions., um artista de quem sempre se considerou um grande fã! Com seu estilo artístico único e suas histórias apaixonantes, esse gigante dos mangás para adultos terá muito a dizer sobre a criação de obras de arte com o Oda Sensei!

Moderador: Hoje estamos recebendo a visita do Taiyo Matsumoto Sensei, de quem o Oda Sensei é um grande fã há anos!

Oda: É um prazer conhecê-lo! Li muitos dos seus quadrinhos e adoro todos eles. Estou muito feliz por poder conhecê-lo hoje.

Matsumoto: O prazer é meu. Sinceramente, parece que não passa um dia sem que eu saia de casa e veja One Piece por aí, de uma forma ou de outra.

Oda: Eu estava realmente ansioso por hoje, imaginando que tipo de pessoa você seria. Na minha cabeça, você é alguém muito enigmático. Você desenhou obras com temas mais sombrios, como Brothers of JapanBrothers of JapanUma coleção de histórias curtas publicadas pela Shogakukan em 1995 e republicadas pela Magazine House em 2010 com material adicional. Conta a história de deliquentes juvenis vivendo suas vidas. Algumas histórias são um pouco sombrias., então imaginei que talvez fosse uma pessoa bastante arisca e excêntrica. Mas agora que o conheci pessoalmente, vejo que você é muito mais descontraído do que eu pensava. E acho que consigo entender melhor como alguém assim pode criar histórias tão variadas.

Matsumoto: Aquele livro foi algo que fiz quando estava muito fascinado pela ATGATGArt Theatre Guild e pelas primeiras obras de Katsuhiro OtomoKatsuhiro OtomoNascido em 1954, é conhecido no mundo todo por sua obra-prima de ficção científica Akira. No começo da sua carreira, ele retratou a juventude no zeitgeist dos anos 70.. Blue Spring também surgiu naquela época. Tive bastante liberdade para trabalhar nos contos.

Oda: Eu costumava pensar que gênios não existiam. Achava que qualquer pessoa que alcançasse o sucesso simplesmente havia trabalhado mais do que as outras. Mas, depois que li Ping Pong, pensei: “Ah, os gênios realmente existem”. Não dá para desenhar um mangá daqueles apenas com esforço.

Matsumoto: Bem, eu também me esforço bastante (risos), mas é muito gentil da sua parte dizer isso. Obrigado.

Oda: É que sua capacidade de expressão é inacreditável. O fluxo dos quadros simplesmente se funde à leitura, e você não consegue perceber os cálculos por trás deles. É como se você estivesse imprimindo imagens que vêm de dentro da sua cabeça ou simplesmente desenhando por puro instinto. Pelo menos, é essa a sensação que tenho. Como funciona seu processo criativo?

Matsumoto: Hmm… Não me lembro muito bem. Eu estava tão ocupado naquela época que não consigo me recordar de quase nada. Quando olho para Ping PongPing PongLançado na Big Comic SPirits from 1996 to 1997. É um emocionante manga de ping-pong focado no relacionamento entre Peco, um jogador genial e seu velho amigo Smile. Foi popular por suas partidas rápidas e poderosas, com personagens impetuosos. Ping-pong teve um filme live-action em 2002., às vezes me pergunto: “Espera, fui mesmo eu que desenhei isso?”. Por outro lado, levei meu tempo para desenhar Takemitsu ZamuraiTakemitsu ZamuraiLançado na Big Comic Spirits de 2006 a 2010. O protagonista Soichiro Seno era um andarilho que se encontra em uma casa no período Edo. Soichiro parece indiferente e descontraído no início, mas na realidade é um mestre espadachin. Esse período da obra se beneficia de um estilo artístico muito tradicional, utilizando um pincel para desenhar as linhas dos quadros., então me lembro muito bem de todo o processo. Você já passou por algo parecido?

Oda: Entendo o que você quer dizer (risos). Quando desenhamos sem ter consciência do que está acontecendo, o resultado acaba sendo assim. Falando em Takemitsu Zamurai, adoro esse mangá. É simplesmente incrível. O ritmo dos diálogos e a sensação geral de espaço são fantásticos. Adoro a maneira como você desenha o olho mais distante, que parece saltar para fora do rosto, e também como desenha as mãos segurando a katana. Na cena em que o protagonista derruba um adversário, pensei: “Caramba, queria conseguir desenhar algo assim”.

Matsumoto: Ooh! Obrigado. Então valeu a pena fazer ela. Foi uma série que praticamente não recebeu elogios dos leitores, então finalmente sinto que fico feliz por tê-la desenhado.

Moderador: Agora, gostaria que o Matsumoto Sensei nos desse sua opinião sobre One Piece. O que você acha do mangá?

Matsumoto: Gosto do fato de que até o leitor sente que está viajando junto com os personagens.

Oda: Sim! Quero que seja uma espécie de parque temático de mangá, no qual você possa desfrutar de experiências variadas.

Matsumoto: Além disso, havia cenas como aquela em que os gigantes lutam, que pareciam muito difíceis de transformar em desenhos, mesmo que você já tivesse a imagem em mente. Achei impressionante que você tenha conseguido fazer essas cenas.

Oda: É muito difícil, admito, mas tento manter em mente uma ideia enquanto desenho: “Aposto que os leitores vão gostar muito disto”.

Moderador: Você tem algum personagem favorito em One Piece?

Matsumoto: Acho que provavelmente é o Luffy. Ele é um protagonista peculiar, não é? Não dá para saber exatamente o que está pensando.

Oda: Com o Luffy, tento mostrar em vez de explicar. Faço questão de não lhe dar falas que expliquem todo a linha do seu raciocínio. Talvez isso crie uma certa aura de mistério nele.

Matsumoto: Sinto que fazia muito tempo que eu não encontrava um mangá do tipo que transborada imaginação e empolgação. É o tipo de obra que faz você pensar: “Isto sim é mangá!”. Ultimamente, não tenho tido muitas oportunidades de ler tanto assim, então isso me pareceu revigorante.

Oda: É mesmo?

Matsumoto: Os mangás com que me deparo hoje em dia costumam abordar acontecimentos do mundo real que foram pesquisados minuciosamente. É claro que geralmente presto atenção neles justamente porque gosto desse tipo de obra.

Oda: Parece ser algo comum nos mangás voltados para adultos. Nas revistas de mangá shonen, as histórias que exploram plenamente a imaginação ainda reinam. Mas isso não significa que você consiga conquistar todos os fãs apenas com a imaginação. Mesmo quando os temas são fictícios, ainda é necessário pesquisar. Você também reúne materiais de pesquisa?

Matsumoto: Faço isso quando desenho algo relacionado a esportes. Mas, quando se trata de histórias fictícias, geralmente não me preocupo com isso. Takemitsu Zamurai era uma história de época que eu sempre quis desenhar, mas evitava por causa de toda a pesquisa necessária. Então, quando consegui um roteirista para cuidar dessa parte, pensei que finalmente poderia realizá-la. Acho que não gosto de acumular todos esses materiais.

Oda: A primeira série sua que li foi Tekkon KinkreetTekkon KinkreetLançada na Big Comic Spirits de 1993 a 1994. Os orfãos Black e Whitei percorrem a selvagem e caótica Treasure Town. Uma história npva, apocalíptica e eletrizante sobre cirnças deliquentes, Yakuza, policiais e outros que tramam pra mudar Treasure Town pra sempre. Adaptada para um filme de animação em 2006., e ela certamente tem muita imaginação.

Matsumoto: Essa é uma das minhas favoritas e reflete meus gostos pessoais melhor do que qualquer outra. Quando olho para ela hoje, há momentos em que penso: “Não acredito que fui capaz de imaginar isso”.

Oda: Adoro ver aqueles garotos correndo por aí com canos de metal e descendo a porrada nos outros. Na verdade, usei essa ideia recentemente no meu próprio mangá.

Moderador: Você está falando do Ace, do Sabo e do Luffy quando eram crianças, certo?

Oda: Sim. A decisão de fazê-los lutar com canos foi influenciada por Tekkon Kinkreet. Simplesmente senti que crianças deveriam lutar com canos de metal! (risos)

Matsumoto: Não é difícil produzir dezenove páginas toda semana?

Oda: É muito. Fisicamente falando, está ficando cada vez mais difícil manter o mesmo ritmo de produção. Mas existe algo no embalo que ganho, nessa sensação de estar encurralado, que me faz pensar que perderia metade do que torna meu mangá bom se me permitisse relaxar demais. Na verdade, espero reduzir a quantidade de páginas que produzo por semana… mas ainda estou tentando descobrir como fazer isso.

Matsumoto: Sinceramente, já não consigo produzir nem perto de vinte páginas por semana.

Oda: Bem, você praticamente desenha todos os cenários sozinho também, então isso leva tempo. Mas você já trabalhou em séries semanais antes, não é?

Matsumoto: Sim. Ping Pong e Tekkon Kinkreet foram publicados semanalmente, mas, na segunda metade de Ping Pong, chegou a um ponto em que eu precisava fazer pausas. Takemitsu Zamurai era publicado durante três meses e depois entrava em um intervalo de três meses, para que eu pudesse acumular material, isso facilitava a organização do tempo.

Oda: Ah, entendi. Acho que esse tempo extra tem um efeito muito positivo na própria arte. Dá para perceber essa tranquilidade na maneira como ela é desenhada.

Matsumoto: Você é do tipo de pessoa que simplesmente precisa estar ocupado?

Oda: Não consigo deixar de apostar nos lampejos de inspiração que tenho quando estou sob a pressão dos prazos. Depois que você adquire experiência em ter boas ideias e desenhar cenas cheias de energia no último instante possível, aprende a confiar nessa explosão repentina de criatividade. Mas, para conseguir provocá-la por conta própria, também é necessário se colocar cuidadosamente em situações difíceis. E o resultado é que isso fica cada vez mais complicado.

Matsumoto: Consigo continuar desenhando desde que tenha intervalos para descansar, mas simplesmente não fui feito para manter um estado mental de intensidade constante. Por outro lado, se eu tivesse todo o tempo do mundo para produzir a melhor obra possível, provavelmente também não conseguiria fazê-la funcionar.

Oda: Como assim?

Matsumoto: Passei cerca de três anos trabalhando em GoGo MonsterGoGo Monster Um mangá publicado em 2000 pela Shogakukan, feito totalmente por material inédito que nunca havia sido publicado em outra revista. É a história de Yuki, um estudante do ensino fundalmental que vê um ninho de monstros na escola, e seu amigo Makoto., uma obra independente publicada diretamente em formato de livro, e ela simplesmente não saiu como eu queria.

Oda: Uau! Você desenhou esse livro enorme de uma só vez?

Matsumoto: Sim. Eu mesmo estabelecia os prazos enquanto desenhava, mas trabalhar dessa maneira era muito diferente de desenhar para uma revista, mais do que eu imaginava. Em determinado momento, pensava: “Ainda posso desistir agora” ou “Posso redesenhar isso se quiser”. Queria simplesmente abandonar tudo, mas meu editor me convenceu a continuar, e só consegui terminar por muito pouco.

Oda: Ah, entendi. Ainda assim, tenho inveja de você por ter conseguido publicar um livro tão bonito. Gostaria de poder desenhar um livro inteiro e publicá-lo de uma só vez, como você fez.

Matsumoto: A ilustração da capa de GoGo Monster também me tomou muito tempo. Mas não sinto que a qualidade do trabalho final esteja diretamente relacionada à quantidade de tempo investido. Quer dizer, levei apenas três horas para fazer a capa do primeiro volume de Ping Pong, desde a página em branco até a conclusão.

Oda: Três horas! (risos)

Matsumoto: Eu tinha pensado em outro desenho inicialmente, mas eles queriam algo diferente, então o editor e o designer do livro foram ao meu estúdio. Disseram: “Vamos dar uma volta por Enoshima, então termine antes de voltarmos”. Mas isso me deixou com apenas três horas. Mal tive tempo de fazer o esboço a lápis, quanto mais de colorir, então simplesmente fiz tudo às pressas com pastéis.

Oda: É um desenho excelente. Está cheio de movimento. Se você não tivesse me contado, eu nunca imaginaria que foi feito em três horas.

Matsumoto: Mas, falando em pressão, dá para perceber ao ler One Piece o quanto o processo de criação é intenso. Só de pensar nisso enquanto leio, começo praticamente a suar frio.

Oda: Fico muito feliz por você dizer isso! É um alívio incrível saber que pelo menos uma pessoa entende!

Moderador: Matsumoto Sensei, seu estilo artístico muda de uma série para outra. Isso vem das suas próprias preocupações e interesses pessoais?

Matsumoto: Se tivesse que dizer, acho que é o conteúdo da história que muda para se adequar à arte. Para mim, a arte no mangá é uma ferramenta para conduzir a história e ajudar a expressá-la. Portanto, não tenho nenhuma preocupação específica quanto à maneira de desenhar, mas admito que, em Takemitsu Zamurai, por exemplo, estou tentando deixar que a própria arte determine boa parte da obra.

Oda: É realmente incrível como algumas ilustrações conseguem transmitir algo com apenas uma imagem, sem precisar de história, contexto ou narração para funcionar.

Matsumoto: Exatamente. Muitas vezes sinto que é difícil alcançar isso quando trabalho com ilustrações.

Oda: Desculpe por mudar de assunto, mas você usa computador para desenhar?

Matsumoto: Não tenho computador.

Oda: O quê? Mas isso não é inconveniente?

Matsumoto: Minha família tem um, então não chego a sofrer por causa disso.

Oda: Então você não desenha nada no computador.

Matsumoto: Você também faz praticamente tudo à mão, não é?

Oda: Sim, embora eu use o computador para desenhar os retratos do autor que aparecem nos volumes individuais. Mas meu computador também está estranho ultimamente. Então, tudo é desenhado à mão, no papel.

Matsumoto: Gosto de como sua arte realmente transmite essa sensação de algo desenhado à mão.

Oda: Sinto o mesmo em relação à sua. Existe algo na arte de que gostamos que simplesmente parece certo quando a contemplamos. Podemos ficar olhando para ela pra sempre sem nos cansarmos. E existe também uma arte que parece bonita, mas que só conseguimos observar por algum tempo. Acho que, em geral, os desenhos feitos à mão tendem a pertencer à primeira categoria, por isso isso é importante para mim.

Matsumoto: Você está mais ou menos na metade de One Piece, certo? Quantos anos acha que vai levar para chegar ao final?

Oda: É assustador quando começamos a fazer as contas de verdade, então hoje em dia tento não pensar nisso (risos). Não sei quantos anos vai levar, mas vou chegar ao final.

Matsumoto: Bem, espero que você leve o Luffy e sua tripulação até o fim da Grand Line.

Oda: Obrigado! Cada vez que você lança um novo mangá, sinto como se estivesse revelando uma nova gaveta do seu armário cheio de truques. Mal posso esperar para ver o que vem a seguir.

Matsumoto: Na verdade, meu próximo mangá vai começar muito em breve. Chama-se Sunny e tem um grupo de crianças. Deve ser parecido com isto. (Tira um exemplar para mostrar a Oda.)

Oda: Uau! Então este é um rascunho a lápis do seu próximo mangá! Você coloca tantos detalhes nos traços e nos cenários usando apenas o lápis? Incrível. Você usa perspectiva nos cenários?

Matsumoto: Não. Dá para perceber quando colo as retículas e, de repente, as coisas ficam completamente fora do lugar.

Oda: Não, isso não é problema nenhum! Olha só, este é o tipo de coisa que não se consegue produzir apenas com esforço. É fantástico. Obrigado por me mostrar. Estou muito ansioso para ver a obra! Fico muito feliz por ter tido a oportunidade de conhecê-lo hoje. Muito obrigado!


Entrevista traduzida do texto originalmente publicada em One Piece Color Walk Compendium: Water Seven to Paramount War Volume 2