
Jusaburo Tsujimura
A chama criativa dos artistas é transmitida de entre gerações
Ao pesquisar diferentes modelos de personagens, Oda Sensei encontrou o lendário criador de bonecos Jusaburo Tsujimura
Nascido na Manchuria em 1933. É um artista dos mais variados campos, desde as marionetes até o design de kimone, dos palcos para a produção de filmes, criação de roteiros e direção de artes. Ele ganhou destaques como diretor de marionetes no programa Shin Hakkenden, de 1973, da emissora NHK. Desde lá, ele continua ativo na produção de bonecos originais, produção de programas de fantoches, e desenhos de figurinos para o teatro. Seu trabalho como um artista completo é amplamente reconhecido além do mundo dos fantoches., e agora eles finalmente se encontram. Conheça os segredos de seu processo criativo único, veja os bastidores do espetáculo de marionetes Shin Hakkenden e descubra como ele continua ativo mesmo depois de tantos anos!
Moderador: Esta entrevista aconteceu a pedido insistente de Oda Sensei, então vamos direto ao assunto!
Oda: Estou muito feliz por estar aqui.
Tsujimura: Mas esta não é a primeira vez, certo? Nós nos encontramos em uma das minhas exposições, talvez?
Oda: Na verdade, esta é a primeira vez. Tenho 38 anos e nasci em 1975. Portanto, não pude assistir, quando foram ao ar, aos espetáculos de marionetes que o senhor fez com a NHK, Shin Hakkendenum show de fantoches que foi transmitido pela NHK no Japão de 1973 a 1975. É um conto de fantasia histórica baseada no épico de Koutei Bakin, Nansō Satomi Hakkenden (ou The Eight Dog Chronicles). Tsujimura estava no comando da direção de arte dos bonecos e desenvolveu e produziu os fantoches que apareciam no programa. No seu auge, o show tinha uma audiência de 30% e era imensamente popular com as crianças na época., em 1973, e Sanada Juyushi
Outro show de marionetes transmitido na NHK entre 1975 e 1977. É uma obra de época ratratando as batalhas do general Sanada Yukimura e seus dez corajosos samurais. Assim como Shin Hakkenden, Tsujimura foi o diretor de arte dos fantoches., em 1975.
Tsujimura: Ah, entendi.
Oda: Na verdade, isso me deixa bastante frustrado. Para contar a história em ordem, eu sequer sabia da sua existência até me tornar adulto. Logo depois de completar vinte anos, eu estava muito focado em encontrar boas referências de personagens com modelos novos e diferentes para desenhar. Enquanto procurava novas formas e ideias, encontrei um livro chamado Espetáculos de Marionetes do Mundo em um sebo. Assim que o vi, percebi como os detalhes dos modelos usados nos espetáculos de marionetes eram incríveis. Comecei a pesquisar marionetes e bonecos da República Tcheca, da Rússia e de várias partes do mundo, até descobrir que havia um artista extraordinário aqui no Japão. E esse artista era o senhor, Tsujimura.
Tsujimura: Bem, essa é uma maneira de descobrir a existência de alguém.
Oda: Então, na verdade, foi como se eu tivesse percorrido o caminho inverso para encontrá-lo. Naquela época, sempre que encontrava um boneco ou uma marionete nova, eu a desenhava repetidamente no meu caderno, tentando incorporá-la à minha própria mente. Era uma obsessão.
Tsujimura: Meu Deus. Bem, eu nunca fui bom em nada além de fazer bonecos e marionetes… Na verdade, cheguei aonde estou justamente por ser um inútil.
Oda: Ah, tenho certeza de que não é verdade.
Tsujimura: Meu pai nasceu durante o período Meiji (antes de 1912), então era muito antiquado. Quando eu tinha idade suficiente para começar a andar, ele colocou três objetos nos cantos do quarto: um ábaco, um pincel e um brinquedo. Diziam que o objeto em direção ao qual você caminhasse revelaria algo sobre o rumo que sua vida tomaria. Bem, um dos brinquedos que ele colocou ali era um boneco e, aparentemente, foi esse que eu peguei (risos).
Oda: Imagino que o senhor tenha encontrado seu caminho na vida ainda infância.
Tsujimura: Se você escolhesse o ábaco, seria comerciante; se escolhesse o pincel, seria estudioso. E, se escolhesse um brinquedo, trabalharia com as artes, o que basicamente significava que estava condenado. Ainda estávamos em guerra quando eu era criança, então diziam que, se um menino fazia bonecos, nem sequer era um cidadão de verdade. Por isso, desde pequeno, eu tinha a ideia de que talvez fosse um completo desperdício de ser humano. Eu desenhava flores em jornais velhos e em outras coisas descartadas, transformando-as em algo diferente e tornando-as atraentes. Essa foi a origem da minha criatividade pessoal.
Oda: Então o senhor transformava tudo ao seu redor em algum tipo de marionete ou brinquedo.
Tsujimura: Eu usava cascas de laranja ou restos das espinhas de peixe. Simplesmente juntava essas coisas para criar algo. Isso deixava meus pais muito chateados, eu acho. Eles guardavam a agulha, a linha e a tesoura em algum lugar onde eu não pudesse alcançar, mas eu continuava fazendo coisas mesmo assim.
Oda: O senhor era realmente apaixonado por isso.
Tsujimura: Basicamente, desde que comecei a pensar até por volta dos vinte anos, fazer bonecos e marionetes foi meu passatempo.
Oda: O que mais me surpreendeu foi a maneira como o senhor faz suas marionetes. Especialmente a textura da pele — parece pele humana de verdade. Não sei exatamente como tudo se encaixa cronologicamente, mas, comparado a outros famosos criadores de bonecos, como Jun'ichi NakaharaJun'ichi Nakahara, nascido em 1913, foi influente na cultura feminina antes e depois da segunda guerra, graças ao seu trabalho com ilustração e design de moda. Com 19 anos, ele apresentou “Jun'ichi Nakahara's First French Lyrical Doll Exhibition.” Isso o lançou ao estrelado, depois ele contribuiu com ilustração para capas e artigos para muitas revistas. Depois da guerra, ele começou a revista feminina 'Soleil and the girls' magazine Himawari'. Faleceu em 1983. e Kikachiro Kawamoto
Kihachiro Kawamoto, nascido em 1925, foi um designer de fantoche para a produção do Romance dos Três Reinos da NHK, entre 1982 até 1984. Ele também fez inúmeros filmes originais de stop-motion utilizando fantoches., como The Book of the Dead. Faleceu em 2010., seu estilo é completamente diferente.
Tsujimura: O senhor Nakahara veio um pouco antes da minha época. Mas foi vendo o trabalho dele que comecei a incorporar minhas ideias à criação profissional de marionetes.
Oda: Que tipo de materiais ele usava para fazer seus bonecos?
Tsujimura: O estilo dele se baseava na maneira como faziam isso na França. Ele usava um tecido fino chamado georgette na parte externa para criar a textura. Já o senhor Kawamoto usava couro animal, bem fino, para revestir a parte externa.
Oda: Que tipo de couro?
Tsujimura: Acho que provavelmente era couro de porco. Ele fazia com que as bocas pudessem se mover e os olhos pudessem ser trocados. Era muito bom em criar marionetes com pequenos mecanismos e truques desse tipo.
Oda: Que material o senhor usa nas suas?
Tsujimura: Eu uso chirimen.
Oda: Aquele tecido de trama mais áspera.
Tsujimura: Isso mesmo. Esticar esse tecido sobre a parte externa da marionete é chamado de chirimen-bori. Trouxe essa técnica do teatro kabuki.
Oda: É mesmo!
Tsujimura: Quando era jovem, trabalhei durante três anos em uma empresa que fabricava ferramentas e acessórios para o kabuki, e foi lá que aprendi a técnica. Veja bem, quando você usa a superfície mais áspera do chirimen na parte de trás de máscaras de kabuki ou em acessórios como jarros de saquê, eles têm menos chances de escorregar e se soltar. Então passei a usar essa técnica na fabricação de marionetes.
Oda: Já vi marionetes de vários artistas, mas o senhor é o único que consegue essa textura de pele. Mesmo quando vi uma fotografia de página inteira mostrando o rosto de uma marionete em close, ela ainda estava repleta de detalhes.
Tsujimura: Acredite, não foi algo que eu tentasse fazer desde o início. Foi quando começaram a usar minhas marionetes em fotografias e filmes que as pessoas passaram a dar tanta importância a isso.
Oda: Além da textura da pele, o que mais gosto é o formato dos seus rostos. É um estilo que só o senhor possui.
Tsujimura: Sempre tentei fazer isso. Sempre que crio uma pessoa ou uma figura histórica para minha história, preciso acrescentar algo meu, transformando em um personagem diferente.
Oda: Tem um trecho do seu livro que realmente me deixou impressionado. O senhor disse: “Quanto mais você tenta se aproximar do ser humano, menos humano ele se torna. E, quando você cria algo que não é humano, ele exala humanidade por conta própria.” Achei isso muito profundo.
Tsujimura: Sim. Criar marionetes significa aceitar a distorção e a caricatura.
Oda: Nesse sentido, sinto que a computação gráfica é o equivalente moderno da fabricação de marionetes. Nunca trabalhei com isso, então não saberia dizer com certeza, mas é como criar o modelo de uma marionete na tela de um computador. As coisas ficam cada vez mais realistas, mas, quanto mais você se aproxima da realidade, mais alienígenas elas parecem. Isso me fez lembrar do que o senhor disse.
Tsujimura: Você não pode simplesmente tentar fazê-las iguais a um ser humano. Precisa trabalhar até criar uma determinada imagem de personagem na sua cabeça e, então, dar forma a essa ideia.
Oda: Gostaria de perguntar sobre seu programa de marionetes, Shin Hakkenden. É uma pena enorme que não tenha restado nenhuma gravação dele,então é praticamente impossível assisti-lo.
Tsujimura: Quando estávamos produzindo o espetáculo, todos estavam tão absorvidos pelo processo que não tínhamos tempo para nos preocupar com detalhes como a preservação. Quando decidiram que faríamos um filme, levamos todas as marionetes para o estúdio da Toho para as filmagens, o que foi uma experiência e tanto. Lembro que, em uma cena em que um personagem saltava sobre o convés de um navio, deixamos a marionete cair do alto do telhado do estúdio. E você até consegue ver a mão que pega o boneco na cena.
Oda: Ah, aquelas pequenas imperfeições! (risos) Mas isso também tem seu charme, não é? Quantas marionetes o senhor criou ao todo?
Tsujimura: Incluindo os assistentes, éramos cerca de quatro ou cinco pessoas que criamos aproximadamente quatrocentas marionetes em um período de dois anos.
Oda: Isso é incrível. Todas eram feitas da mesma maneira que esta que o senhor trouxe aqui?
Tsujimura: Não. As marionetes de Shin Hakkenden começavam com um molde feito a partir de argila oleosa esculpida. Estas aqui são marionetes mais ornamentais, cuja parte interna da cabeça de tecido é preenchida com lã de madeira até ficar firme.
Oda: Usar argila oleosa torna o processo mais rápido?
Tsujimura: É praticamente a mesma coisa.
Oda: Entendo. Quatrocentas marionetes com esse nível de qualidade? É simplesmente incrível. Com tantas peças, vocês tiveram problemas com os desenhos ou com os rostos ficando parecidos demais?
Tsujimura: Curiosamente, não. Shin Hakkenden em particular foi concebido para se parecer com uma peça de kabuki, então personagens diferentens tinham seus próprios quimonos e penteados, de modo que nenhum deles acabou sendo exatamente igual aos outros.
Oda: Parte disso vem da incorporação da estética formal do kabuki, mas não pude deixar de admirar como cada parte das marionetes transmite uma sensação de imponência. Quero encontrar uma maneira de imitar os perfis da parte superior dos corpos delas, mas é muito difícil. Recentemente, introduzi no meu mangá um personagem
Oda Sensei está referenciando Fukaboshi, o mais velho dos três filhos de Netuno durante o arco sa Ilha dos Homens-Peixe. O poderoso leder das forças armadas de Netuno. Sua face sisuda foi inspirada nos fantoches do Sr.Tsujimura. que desenhei com base no seu estilo, mas os leitores disseram que minha arte tinha “ficado feia”. Foi um verdadeiro choque para mim. (risos)
Tsujimura: Não deu certo?
Oda: Quero experimentar diferentes modelos de personagens, mas uma coisa é o que eu quero fazer e outra é saber se o público vai gostar. Pessoalmente, sinto que a definição de “imponência” de um personagem é limitada demais. Todos parecem muito semelhantes, com corpos esguios e olhos grandes. Quero criar personagens que sejam imponentes, mas que não tenham essa aparência.
Tsujimura: Todos parecem iguais. Por quê?
Oda: Também achei isso muito estranho. É por isso que estou procurando todo tipo de arte que possa me inspirar, tentando encontrar uma maneira de ampliar as possibilidades.
Oda: Hoje em dia, estão produzindo cada vez mais figuras de personagens de mangá e anime. O que o senhor pensa a respeito?
Tsujimura: Acho uma coisa muito boa. Podemos encontrá-las até mesmo quando viajamos para o exterior. Estamos vivendo um período de grande popularidade das figures, dos bonecos, das marionetes — seja qual for o nome que você queira dar a eles. Isso também vale para a computação gráfica. Na minha época, as pessoas não davam importância ao que fazíamos, então ver essa forma de arte sendo reconhecida pela sociedade é maravilhoso.
Oda: Não é possível produzir essas marionetes em massa, certo?
Tsujimura: Acho que não. Eu mesmo faço o revestimento externo e teço os cabelos. Faço tudo sozinho. O penteado e a cor do quimono mudam dependendo do tipo de pessoa representada. Você não pode fazer uma princesa e uma garota da cidade parecerem iguais. Esse é o processo criativo que utilizo para dar forma a cada uma delas.
Oda: E, quando desenho, não sei nada disso. Nossa, agora não quero que ninguém veja minhas ilustrações no estilo “tradicional”.
Tsujimura: Bem, você não pode ter pressa. Só precisa aprender com o tempo.
Oda: É tudo tão profundo! Eu vou estudar o máximo que puder.
Tsujimura: Mas a questão é que aquilo que vocês desenham hoje é o ukiyo-e da nossa época. O Japão possui toda essa cultura que só existe aqui. Na minha opinião, é justamente a cultura tradicional, as coisas realmente antigas, que continua sendo verdadeiramente inovadora e duradoura. Quanto mais recente é algo, mais rápido envelhece.
Oda: Entendo perfeitamente e concordo com isso.
Oda: Eu esperava conseguir descobrir pelo menos um pouco de como o senhor consegue criar esses bonecos e marionetes, mas acho que não consegui (risos). A única coisa que sei é que isso exige muita experiência em diversas áreas.
Tsujimura: Acho que tive a sorte de receber esse dom. Foi como se algum tipo de fio invisível tivesse me guiado pelo caminho. Mas não sei muito bem como colocar isso em palavras. Ainda assim, mesmo depois de fabricar marionetes por tanto tempo, continuo sentindo prazer cada vez que faço uma. Portanto, enquanto você estiver se divertindo ao criar seu mangá, acredito que conseguirá continuar fazendo isso por muito tempo.
Oda: Entendo. O problema é que minha resistência física já não é a mesma de antes.
Tsujimura: Não há o que fazer quanto a isso. As pessoas envelhecem. Mas isso só mostra o quanto você já avançou. E, antes que perceba, já terá passado do auge.
Oda: (risos)
Tsujimura: Mas há algo que costumo dizer muito hoje em dia. Você já vivenciou o dia de hoje, mas amanhã será uma experiência completamente nova na sua vida. Portanto, não viva amanhã da mesma maneira que viveu ontem! Faça pelo menos uma coisa que nunca fez antes. Se forem coisas difíceis, você não conseguirá continuar por mais de três dias, então comece com algo simples e novo. Assim, algo diferente acontecerá com você todos os dias.
Oda: Com que idade o senhor começou a fazer isso?
Tsujimura: Desde os 65 anos. E é por isso que a maneira como faço minhas marionetes evoluiu um pouco. Estou ensinando meus alunos, e eles dizem: “Sensei, não foi assim que o senhor nos ensinou antes”.
Oda: Já senti isso! Quando leio todos esses livros, às vezes percebo que tenho respostas diferentes para as mesmas perguntas. É como se tudo estivesse se conectando na minha cabeça.
Tsujimura: Desde que você continue se movimentando e experimentando coisas todos os dias, encontrará cada vez mais vontade de criar.
Oda: Espero seguir esse exemplo.
Moderador: Alguma palavra final de incentivo?
Tsujimura: Sou muito grato por ter tido a oportunidade de conversar com um jovem como você. O mundo continuará mudando e evoluindo de maneiras que hoje sequer conseguimos imaginar, não é? As coisas se tornarão cada vez mais digitais, e é por isso que espero que você continue trabalhando com tinta e papel, fazendo as coisas da maneira analógica. Espero que esse estilo continue existindo.
Oda: Concordo plenamente. Quero continuar trabalhando com papel e caneta.
Entrevista traduzida do texto originalmente publicada em One Piece Color Walk Compendium: Water Seven to Paramount War Volume 2