
Katsuya Terada
Coloque sua alma em cada linha!! Um encontro entre dois homens que vivem por meio da arte!
Esta é uma conversa entre Eiichiro Oda e Katsuya Terada
Nascido na cidade de Okayama, em 1963. Começou fazendo trablahos de ilustrações enquanto estava na escola profissionalizante, e continuou como um profissional após a graduação. Famoso por ser um pioneiro na ilustração digital e produção de mangá. Além de livros comoe Katsuya Terada Everything, Katsuya Terada RakugaKing, e Katsuya Terada's Last 10 Years, ele também faz exibições de arte tanto no Japão quanto no exterior. Recentemente começou a produção de utensílios com sua arte nele. Está envolvido com uma variedade de projetos criaticos, como o mangá The Monkey King e fazendo o design de criaturas para Kamen Rider W., que fez uma ilustração para One Piece: Ace’s Story! Continue lendo para ver como dois artistas que colocam suas almas em seus desenhos sincronizam seus pensamentos através das fronteiras entre mangá e ilustração, analógico e digital!
Moderador: Hoje, nosso convidado é o Katsuya Terada Sensei, que fez uma ilustração em colaboração com nosso romance sobre Ace!
Oda: Muito obrigado por ter vindo! Fiquei intimidado no caminho até aqui, porque sua arte é simplesmente fenomenal. Seu livro de ilustrações em colaboração com Kim Jung GiUm artista nascido na Coreia do Sul em 1975, mesmo ano do Oda. Ele começou como um artista de quadrinhos até as filmagens de uma exibição de desenhos em um evento ficou viral e trouxe ofertas de trabalho de todo o mundo me deixou impressionado.
Terada: Ah, por favor. Se quiser, pode ficar intimidado com o Kim, mas não precisa disso comigo!
Oda: Não, é verdade! Acho que qualquer pessoa que trabalhe com arte ficaria intimidada só de ouvir o nome Katsuya Terada (risos). Fico muito feliz por termos a oportunidade de sentar e conversar tranquilamente.
Moderador: Oda Sensei, conte-nos o que o atrai na arte do Terada Sensei.
Oda: Acho que o mais impressionante é a maneira como ele consegue descrever personagens e histórias simplesmente por meio de imagens. No mangá, você pode construir as coisas com diálogos e com o desenrolar da história, mas, no caso dele, é possível transmitir a mesma quantidade de informações sem nada disso. E, acima de tudo, basta olhar para perceber que ele está realmente se divertindo ao criar. A arte dele me dá vontade de desenhar.
Terada: Obrigado (faz uma reverência). Eu me considero metade artista de mangá, metade ilustrador. Mas o lado de artista de mangá é minha perna dominante, por assim dizer. Por isso, quero criar arte que conte histórias, que tenha caracterização. Por exemplo, não consigo desenhar o rosto de alguém se não souber o que essa pessoa está pensando.
Moderador: Quando você fez a ilustração do Ace
Uma ilustração feita para a primeira apresentação de One Piece: Ace's Story, que foi publicada na One Piece Magazine, Vol. 1, para o vigésimo aniversário de One Piece em Julho de 2017. Além de Terada Sensei, havia obras feitas por Kinu Nishimura Sensei e Kazuya Takahashi Sensei. , o que achou mais legal nele?
Terada: Eu diria que… o rosto dele! Ele está sempre ótimo, independentemente da situação. Basicamente, observei de cima todas aquelas expressões, comparei-as com as variedades de rostos bonitos que consigo criar e cheguei àquela ilustração. Acho que dá para comparar o processo mental que usei para a escalação de um filme.
Oda: Ah, entendi. Muito obrigado por aquela ilustração incrível!
Moderador: Terada Sensei, pode nos dizer o que você gosta na arte do mestre Oda?
Terada: Vou ser ousado e perguntar diretamente: você faz parte da geração de Akira Toriyama?
Oda: Sim. (com firmeza)
Terada: Todo mundo cresce sob a influência dos grandes artistas que vieram antes, e quanto maior essa influência, mais difícil é escapar dela. Mas, dentro desse sistema, você sempre teve sua própria visão de mundo e perspectiva. Por isso, sua obra não é uma imitação de Toriyama. Isso é incrível. Quando você alterna entre trabalhar com mangá e ilustração, seu processo ou sua abordagem muda?
Oda: Não. Trato ilustrações e mangás da mesma maneira: quero expressar as emoções e ações dos personagens. É como se eu recortasse um único instante em que essas coisas ficam visíveis. Mas sinto que já desenhei há muito tempo tudo o que queria desenhar. Esse é o maior obstáculo para mim agora. Você alguma vez fica entediado, senhor Terada?
Terada: [Imediatamente] Sim! O tempo todo! Quero desenhar coisas que nunca desenhei antes e encontrar linhas que nunca encontrei antes. Isso está sempre na minha cabeça. Mas, mesmo com o mesmo tema, às vezes, na segunda tentativa, você consegue fazer coisas que não conseguiu na primeira. Talvez consiga criar uma obra que supere a anterior. Se depositar suas esperanças nisso, talvez consiga aproveitar mais o processo.
Oda: É um bom ponto! Concordo. Quais ilustradores e artistas de mangá influenciaram você quando era mais jovem?
Terada: Eu adorava o homem que desenhava as capas de Torzan para a linha de ficção científica da Hayakawa, chamado Motoichiro Takebe, e também um quadrinista francês chamado Moebius. Fui muito influenciado por eles.
Oda: Ah! E Katsuhiro Otomo também adorava Moebius, não é?
Terada: Isso mesmo. Em termos de gerações, você provavelmente seria como um neto da influência deles, mas, quando os descobri aos quinze anos, foi instantâneo. Eu colecionava edições antigas de revistas importadas e as examinava atentamente. O texto estava em francês, então eu não fazia ideia do que acontecia na história. Mas a arte era tão incrível que eu conseguia imaginar que se tratava de algo grandioso e épico. Depois saiu uma tradução japonesa, e a história não era nem um pouco o que eu esperava (risos).
Oda: Como um trailer de filme enganoso.
Terada: Mas os mangás semanais também são assim, não? Você cria expectativas nos leitores e depois lhes entrega algo que vai além do que imaginaram e esperavam. É uma façanha incrível conseguir fazer isso de maneira consistente durante tanto tempo.
Terada: Comecei a ler a Jump na terceira série do ensino fundamental. Na época, as histórias incluíam Mazinger Z, Dr. Toilet e Manga Drifters. O mestre Tezuka também desenhava para a revista. Quando você começou a lê-la?
Oda: Também na terceira série. Dragon Ball ainda não tinha começado. Era tudo Kinnikuman, Hokuto no Ken e Captain Tsubasa.
Moderador: Mestre Terada, entendi que você foi assistente do mestre Masakazu Katsura na época de WingmanMangá de estreia de Masakazu Katsura, que começou a ser serializado em 1983. O estudante de ensino médio Kenta Hirono, que admira heróis, se transforma no superheroi Wingman, e precisa lutar contra inimigos que invadiram a terceira dimensão. Serve como base do que Katsura Sensei seria conhecido: garotas bonitas e superhróis..
Terada: Ele era veterano na escola profissionalizante que eu frequentava. Ainda mantemos contato. Vim para Tóquio para estudar numa escola de arte e conheci Katsura numa festa de boas-vindas aos novos alunos. Ele estava dançando com uma fantasia de herói de tokusatsu, mas a fantasia era de uma qualidade incrível. Perguntei: “Quem fez isso?” E ele respondeu: “Eu.” Fiquei impressionado.
Oda: Então ele já gostava de super-heróis naquela época.
Terada: Foi assim que o conheci, e depois o ajudei uma única vez, no começo da série dele. Meu trabalho era apagar o lápis, mas eu acabava amassando o papel (risos). Foi a primeira vez que vi um artista profissional de mangá trabalhando. Também conheci o senhor Toriyama por meio de Katsura.
Oda: Ah! Que interessante.
Terada: Para mim, o mangá é a forma de entretenimento conceitualmente mais elevada. Por mais que você possa falar qualquer coisa sobre o cinema, nos mangás uma única pensou desenho aquilo pra você! Desde menino, eu queria ganhar a vida desenhando. Acabei seguindo o caminho da ilustração, mas, na minha cabeça, sou metade artista de mangá. É só que nunca passei da fase de “novato” no mangá (risos).
Oda: Acho que agora entendo por que sua arte tem tanto caráter e tanta história.
Terada: Quando você era criança, você nunca teve dúvidas de que queria ser artista de mangá, não é?
Oda: Isso mesmo.
Terada: Imaginei. Esse é o tipo de pessoa que acaba realmente se tornando artista ou artista de mangá.
Oda: Hoje eu queria aproveitar para perguntar sobre seu trabalho digital. Que programa você usa?
Terada: Eu costumava usar o Painter, mas agora uso o Procreate. Como hoje dá para desenhar em qualquer lugar desde que você tenha um iPad Pro, trabalhar durante viagens ao exterior ficou muito mais fácil.
Oda: E quais pincéis você usa?
Terada: Só o lápis 6B que vem com o programa. Ajusto a intensidade conforme vou trabalhando, só isso.
Oda: Achei que você tivesse suas próprias configurações de pincel… Ultimamente, tenho ficado muito interessado em colecionar diferentes ferramentas de pincel.
Terada: Acho que basta experimentar coisas diferentes e usar as que melhor combinam com seu estilo.
Oda: Finalmente encontrei um pincel que me parece certo. Passei toda a minha carreira desenhando no papel, mas, recentemente, comecei a criar o hábito de fazer trabalhos digitais para os vários materiais extras que a Jump me pede. Realmente parece que as ferramentas digitais chegaram a um ponto em que não dá para distinguir a arte digital da tinta no papel. Também gosto muito do recurso de gravação em time-lapse.
Terada: Que ótimo. É surpreendentemente fácil fazer algo que pareça muito mais trabalhoso do que realmente é (risos).
Oda: Quando você começou a trabalhar digitalmente?
Terada: Quando estava fazendo The Monkey KingUm mangá colorido baseado na Jornada para o Oeste, lançada em 1995 na Ultra Jump. Depois de um tempo, a publicação mudou para preto e branco, mas foi atualizada para o formato colorido quando foi compilada em graphic novels.. O primeiro capítulo foi feito com Liquitex e Copics, e passei para o digital no segundo capítulo.
Oda: Hoje é tão comum fazer páginas coloridas com ferramentas digitais que fica difícil se destacar. Mesmo assim, você tem suas próprias cores e seu próprio estilo.
Terada: Se você usa ferramentas digitais para facilitar o processo, sua arte acaba parecendo sem profundidade. Por isso, quando olho para a maioria das obras, penso: “Está faltando personalidade.” Mas algumas pessoas sabem usá-las bem. Quando Toriyama passou a trabalhar digitalmente, continuou sendo a arte dele. Acho que é preciso enxergá-las como ferramentas. Trabalhe digitalmente, mas mantenha sempre em mente que você também conseguiria fazer a mesma coisa de forma analógica.
Moderador: Com a arte digital, é possível continuar corrigindo e alterando as coisas indefinidamente. Deve ser difícil chegar ao ponto de pensar “Está pronto!”
Terada: No meu caso, normalmente defino primeiro a paleta — meu azul será deste tom, e assim por diante — e não me desvio dela até terminar. Porque, se você começar a pensar “Bem, eu poderia usar vermelho no lugar”, criará possibilidades demais e ficará preso num pântano de escolhas.
Moderador: E você, Oda Sensei?
Oda: Quando faço trabalhos coloridos no papel, existe um limite físico para a quantidade de alterações de cor que posso fazer, então não preciso me preocupar com isso.
Terada: Você não pensa em passar para o digital?
Oda: Decidi que vou desenhar o mangá de One Piece e suas páginas coloridas com caneta e papel até o fim. Acho que é isso que os leitores também querem.
Terada: Mas os materiais de arte estão desaparecendo aos poucos. O que você fará se pararem de vender canetas Copic?
Oda: Isso seria ruim (risos).
Terada: Talvez, seja só uma hipótese, mas você deveria considerar a possibilidade de precisar mudar para o digital por motivos físicos. Desenhar linhas com uma caneta exige força física.
Oda: Comecei a pensar nisso. Por quantos anos conseguirei continuar trabalhando com toda essa força? O motivo de eu ter levado adiante a série live-action de One PieceUma adaptação americana de One Piece em live-action foi anuncianda em Setembro de 2017, produzida pela Tomorrow Studios, produtores de Prison Break ae outros programas foi achar que aquele era o último momento em que eu conseguiria fazer isso. Daqui a alguns anos, não terei mais energia para ter conversas difíceis com a equipe de produção no exterior e fazer verificações de qualidade. Então pensei: “A hora é agora!” Você pensa numa década à frente ou tem objetivos para si mesmo?
Terada: Daqui a dez anos…? Não faço ideia! Mas quero estar em forma o suficiente para continuar desenhando e não deixar minha arte perder a força. Quero desenhar para sempre. Tenho cinquenta e quatro anos agora. No período Edo, já estaria aposentado; no período Sengoku, já estaria morto há muito tempo (risos). Sou grato por ter nascido numa época em que posso viver bastante e quero desenhar até chegar a hora de partir. Meu objetivo é superar Hokusai Katsushika! Manter a saúde é o mais importante.
Moderador: Já que vocês dois estão aqui, vamos perguntar: como se fica melhor em arte?
Terada: Simples: continue desenhando! Mas todo mundo fica chateado quando você diz que essa é a resposta (risos).
Oda: As pessoas sempre querem ouvir falar de algum truque especial ou da ferramenta perfeita que podem comprar para fazer tudo dar certo.
Terada: Quando eu era criança, também achava que existia um atalho para melhorar… mas não existia.
Oda: Acho que também pode ser difícil continuar desenhando quando se é criança. Se você vai à escola e faz aulas de arte, acabam apagando todas as ideias livres que você tem e os traços únicos que são seus.
Terada: Frequentei uma aula de arte quando era pequeno, e não era muito divertido. Mas a questão é que a arte é 80 a 90 por cento razão e lógica. É na parte restante que sua individualidade aparece. Só que essa parte única precisa estar sobre uma base de habilidades, como saber desenhar uma curva adequada ou uma linha reta. Então, antes de tudo, desenhe bastante. Eu diria que a maioria das pessoas que querem melhorar na arte nem sequer faz isso.
Oda: Entendo. Sei como é importante manter as mãos ocupadas. É quando você está mais ocupado que desenha as melhores linhas. Quando você passa muito tempo sem dormir, é aí que entra na “zona invencível” (risos).
Terada: Você realmente deveria dormir! (risos). Sempre fui completamente inútil sem dormir, mesmo quando era jovem, então isso nunca foi um problema para mim. Uma vez, tentei não pegar no sono e acabei escrevendo o algarismo cinco usando o kanji de sete. Fiquei assustado.
Oda: Uma vez, de repente, percebi que estava desenhando peitos no Luffy (risos). Falando nisso, as mulheres que você desenha são tão sensuais e fofas. Existe alguma pessoa específica que você usa como modelo? Alguma celebridade ou coisa do tipo?
Terada: Não existe nenhuma pessoa ou modelo específico que eu prefira usar como inspiração. Há rostos de que gosto, mas isso é diferente do que procuro numa parceira. Acho que, quando desenho, tendo a buscar aparências interessantes e estilosas, em vez de simplesmente atraentes.
Oda: Então, se uma mulher exatamente igual a uma de suas ilustrações dissesse “Por favor, case-se comigo”, o que você faria?
Terada: Eu… provavelmente pensaria no assunto (risos). Então, os rostos de que você gosta são os mesmos que gosta de desenhar?
Oda: Sim, são os mesmos.
Terada: Bem, comecei a desenhar mulheres quando passei a receber trabalhos para ilustrar capas de revistas eróticas. Até então, não desenhava mulheres com muita frequência. Por isso, naquela época, tornou-se um tema importante para mim tentar desenhar um rosto diferente a cada vez.
Moderador: Então, observar mulheres é essencial para desenhá-las?
Terada: Isso vale para tudo, na verdade. Você pode observar o rosto de muitas mulheres, mas não chega realmente a guardar esses rostos na memória. Estamos criando essa arte para fins de entretenimento, então, é claro, queremos desenhar mulheres bonitas. Mas, se você não tiver uma ideia muito clara dos padrões dessa beleza, o resultado ficará um pouco fora de foco. Coisas como os estilos de maquiagem mudam muito rapidamente. Se você prestar atenção às coisas erradas, acabará desenhando a maquiagem, em vez dos rostos das mulheres.
Oda: Concordo plenamente.
Moderador: Para terminar, uma última mensagem de um para o outro.
Oda: Vou começar. Como mencionei antes, ver sua arte realmente me dá vontade de desenhar. Espero que você consiga continuar para sempre, sem se cansar disso!
Terada: Você disse que vai “continuar desenhando One Piece como sempre”, mas a verdade é que as coisas mudam. Não há como impedir isso. E estou realmente ansioso para ver essa mudança. Você enfrenta diferentes dificuldades ao longo do caminho e fica ainda melhor. Adoro acompanhar a evolução dos artistas com o passar do tempo, e é um verdadeiro privilégio poder ver esse processo acontecer. Quero muito ver você desenhar algo que não seja One Piece, algo que nem sequer seja reconhecível como uma obra de Eiichiro Oda! Então, por favor, cuide da saúde (risos).
Entrevista traduzida do texto originalmente publicada em One Piece Color Walk Compendium: New World to Wano Volume 3