
Eisaku Kubonouchi
Os dois homens por trás de uma colaboração dos sonhos falam sobre a vida de desenhar mangá!
Após a série de comerciais crossover “Hungry Days”, com o Cup Noodle da Nissin, conversamos com Eisaku Kubonouchi
Sua série mais famosa, Tsurumoku Bachelors' Dorm e Chocolat, é amada no mundo inteiro, com traduções e adaptações para filmes/live-actions. Atualmente trabalha principalmente com ilustração e design. Seus personagens são bonitos e cheios de vida, normalmente desenhados com lápis coloridos e marcadores, conquistaram os corações de leitores de todas as idades, especialmente as mulheres jovens.! Além de conhecer os bastidores da criação dos comerciais, vamos ouvir o que esses dois homens, que dedicaram suas vidas ao mangá, têm a dizer!
Moderador: Hoje estamos conversando com o Eisaku Kubonouchi Sensei, responsável pelo design dos personagens da série de comerciais “Hungry Days”, uma colaboração entre o Cup Noodle da Nissin e One Piece.
Kubonouchi: Obrigado pelo convite.
Oda: O prazer é meu.
Moderador: Para começar, o que você achou dos comerciais finalizados?
Kubonouchi: Não tivemos muito tempo para produzi-los, então a equipe de animação e os diretores precisaram de muita paciência e persistência, e a qualidade acima da média. Acho que todos fizeram um ótimo trabalho.
Oda: Só posso dizer que adorei. Quando soube da proposta para os comerciais, voltei a ler sua série Tsurumoku Bachelors' DormTsurumoku Bachelors' Dorm é um mangá de Eisaku Kubonouchi lançado na Big Comic Spirits (publicado por Shogakukan) de 1988 a 1999. É uma comédia romântica sobre Shota Miyagawa, um novo empregado na Tsurumoku Furniture, e outros moradores na residência na qual ele vive. Um filme live-action foi feito em 1991. e relembrei muita coisa.
Moderador: Quando a colaboração foi confirmada, qual era sua impressão de One Piece, mestre Kubonouchi?
Kubonouchi: Para ser completamente sincero, quase nunca leio mangás. Também quase nunca assisto a animes. Mas, é claro, eu conhecia One Piece, sua visão de mundo e sua atmosfera geral. Só nunca tinha lido a obra de fato. Então, quando recebi a proposta para os comerciais, entrei um pouco em pânico. Pensei: “Será que consigo mesmo desenhar isso?” One Piece continua sendo uma série em andamento e é o mangá mais vendido do mundo. Minha primeira reação foi: “Caramba, não posso mexer com isso!”
Oda: Adoro criar personagens. Também adoro projetá-los. Mas crio tantos que depois tenho dificuldade para definir claramente o papel de cada um.
Kubonouchi: Você prepara fichas de design enquanto trabalha na série?
Oda: Não faço fichas de design propriamente ditas. Faço alguns esboços rápidos e geralmente finalizo os personagens quando os desenho pela primeira vez no mangá.
Kubonouchi: Isso significa que você vai memorizando a forma e os detalhes dos personagens à medida que trabalha?
Oda: Não, não os memorizo. Com o tempo, lembro dos personagens principais que estão sempre em ação, mas, quando há muitos personagens fazendo coisas ao mesmo tempo, volto aos esboços e aos materiais para refrescar a memória.
Kubonouchi: Faz sentido, considerando a quantidade de personagens com que você precisa lidar.
Oda: Sempre que desenho de memória, achando que me lembro de tudo corretamente, é aí que as coisas dão errado. Esqueço cicatrizes no rosto ou no corpo, coisas assim. Isso acontece tantas vezes que é mais fácil conferir desde o começo.
Kubonouchi: Ah, interessante. Notei que as silhuetas dos personagens de One Piece tendem a ser humanas ou monstruosas, e que os personagens do tipo monstro muitas vezes têm o contorno de Tetsujin 28Tetsujin 28 (Gigantor) é um robô que aparece no mangá Tetsujin 28, de Mitsuteru Yokoyama, que foi publicado de 1956 a 1966. O protagonista, Shotaro Kaneda, manipula um robô por controle remoto. Essa história foi adaptado em um anime, um programa tokusatsu e um filme animado. Você gosta desse tipo de silhueta?
Oda: Crio as formas dos personagens com base em várias lembranças da infância.
Kubonouchi: Entendo. De certa forma, é um pouco à moda antiga você ter tantos personagens com esse tipo de silhueta. Enquanto desenhava os personagens, eu ficava percebendo isso e pensando: “Ah, ele deve gostar desse visual.”
Oda: Há vários mesmo. Acho que você provavelmente tem razão.
Kubonouchi: É mesmo? No geral, há tanta variedade que foi muito divertido trabalhar com personagens de físicos tão diferentes, especialmente os mais monstruosos.
Oda: Vocês desenharam tanto que não dá para distinguir o que foi feito pelos animadores e o que foi feito por você, não é?
Kubonouchi: Isso mesmo. Basicamente, o diretor sempre pedia mais revisões (risos).
Oda: Isso parece ter sido bem complicado…
Kubonouchi: A produtora já estava sobrecarregada com o volume de trabalho, mas dei as instruções tão detalhadas quanto pude. Se a arte animada ficar muito diferente do meu estilo, então penso: “Por que estou fazendo o design dos personagens, afinal?” Tenho a impressão de que os animadores ficam presos demais aos estilos de anime contemporâneos, e os designs acabam sendo convertidos para esse visual. Chamo isso de “lavagem de anime”. Eles simplesmente não conseguem evitar redesenhar tudo num estilo com o qual se sintam mais confortáveis. Nesse caso, não faria sentido me chamar para criar os designs; seria tipo “poque não só desenhar estilo típico de anime, não é?”. Por isso, desenhei o máximo de personagens que consegui e fiz o possível para explicar os detalhes aos animadores, para que minha participação tivesse propósito. Fiz o máximo possível dos esboços antes da animação-chave. No comercial centrado na Vivi, os animadores simplesmente não conseguiam reproduzir a expressão abatida dela no meu estilo, e o diretor pediu muitas revisões. Foi tudo decidido no limite do prazo.
Oda: Então o diretor e os animadores estavam realmente empenhados. Queriam fazer o que fosse necessário para incorporar sua arte.
Kubonouchi: Acho que sim.
Oda: E isso deve ser difícil quando falamos de personagens com estruturas ósseas sem precedentes.
Kubonouchi: Minha arte parece fácil de imitar, mas, pelo que as pessoas me dizem, é surpreendentemente difícil. Além desses comerciais, já fiz design de personagens para animes várias vezes, e isso sempre causa dificuldades aos animadores.
Oda: De que maneira?
Kubonouchi: Bem, tenho uma maneira própria de usar as linhas e trabalho bastante com espaços negativos. Pelo visto, não dá para fazer exatamente a mesma coisa em anime.
Oda: Entendo. Então existem técnicas de mangá que não podem ser usadas em anime…
Kubonouchi: No anime, não dá para variar a espessura das linhas da mesma maneira. Além disso, muitos animadores não esboçam antes a estrutura do rosto e coisas do tipo. No meu caso, visualizo essa estrutura antes de desenhar, e é daí que muitas diferenças surgem. Em poses que distorcem o rosto, como olhar para cima ou para baixo, há uma diferença entre quem consegue esboçar a estrutura óssea e quem não consegue. Acho que isso é uma parte importante do problema.
Kubonouchi: Enquanto lia os volumes de One Piece, fiquei pensando o tempo todo no quanto você deve trabalhar nisso.
Oda: Eu desenho tudo o que se move.
Kubonouchi: Até as pequenas coisas no fundo, as manchas e tudo mais?
Oda: Isso mesmo. As coisas que afetam a apresentação também afetam a história. Então, se outra pessoa desenhasse o movimento do vento ou o ângulo da neve, o resultado seria um pouco diferente do que tenho em mente.
Kubonouchi: Porque ficaria diferente.
Oda: Uma vez, minha equipe quis ajudar e perguntou: “Por que não podemos desenhar a neve?” Então fiz um teste e disse: “Vão em frente, desenhem.” Mas ainda ficou diferente do que eu queria expressar. Aí falei: “Estão vendo a diferença?” E eles responderam: “Ah, agora entendi.”
Kubonouchi: Exatamente. Esse é o dilema.
Oda: Dependendo do quadro, a maneira como a neve ou a chuva cai pode depender de como estou me sentindo naquele momento ou precisar refletir o que os personagens estão sentindo. É algo sutil. Talvez a maioria dos leitores nem perceba…
Kubonouchi: Não, eles percebem, sim! Tenho certeza.
Oda: Você acha?
Kubonouchi: Eu também era assim. Deixava que desenhassem o mínimo necessário dos detalhes do fundo, mas depois entrava e acrescentava manchas, sombras extras e coisas do tipo.
Oda: Você é muito exigente com os cenários.
Kubonouchi: Eu mesmo fazia todas as partes que se moviam. E, quando pedia aos assistentes que fizessem as linhas de velocidade e elas não ficavam certas, eu também acabava fazendo tudo sozinho. Queria fazer o máximo possível por conta própria. Por isso, quando vi os volumes de One Piece, pensei: “Nossa, o Oda tem um trabalho enorme para fazer isso.” Não consigo acreditar que você faz isso semanalmente há vinte anos.
Oda: É verdade. Dá muito trabalho, mas eu disse aos leitores: “Desenho tudo o que se move, até a neve e a chuva”, então não posso quebrar essa promessa agora.
Kubonouchi: Ah, então é uma promessa? (risos)
Oda: Acho que só preciso continuar fazendo assim.
Oda: Quando li Tsurumoku Bachelors’ Dorm, pensei: “O cara que desenhou isso deve ter vivido muitos romances.”
Kubonouchi: Na verdade, nem um pouco. Estudei numa escola técnica só para meninos, então as garotas pareciam pertencer a outro mundo. Quando abrimos a escola para o festival cultural e elas entraram, lembro que fiquei muito nervoso. Portanto, não tive as mesmas experiências de juventude que muitas outras pessoas. DE daí eu consegui minha série de mangá quando tinha 21 anos, daí pra frente basicamente passei a viver no meu estúdio.
Oda: Entendo. Quando comecei minha série, percebi que não podia ter ninguém por perto.
Kubonouchi: Sim, entendo perfeitamente. No meu caso, desenho garotas fofas e mulheres bonitas porque não vivi aquelas experiências agridoce quando era jovem, então sinto ainda mais vontade de vivê-las. Mesmo agora, na minha idade.
Oda: Tipo, você quer recuperar aquela juventude?
Kubonouchi: Sim, fico pensando: “Ainda quero viver um romance!” Isso é meio assustador quando se está na casa dos cinquenta (risos). Enfim, esse é um dos impulsos que alimentam minha criatividade. Então, quando estou no trem ou em algum outro lugar e vejo uma mulher bonita, não faço nada; apenas observo e deixo a imaginação criar vários cenários.
Oda: Então você cria suas histórias românticas com a imaginação, e não com experiências pessoais?
Kubonouchi: Se eu me baseasse em experiências pessoais, minha história acabaria em três volumes (risos). Basicamente, imagino o que eu teria feito se fosse minha versão mais jovem naquela situação. Digamos que eu veja um garoto e uma garota caminhando juntos. O garoto está um pouquinho à frente, e ela segura a manga da camisa dele. Isso já basta para me fazer imaginar uma história. O que está acontecendo ali? Ela começou a segurar a manga desde o início? Ou está segurando a manga porque ainda não consegue pegar na mão dele? Imagino diferentes cenários e romantizo tudo na minha cabeça, como um esquisitão num canto (risos).
Oda: Enquanto lia Tsurumoku Bachelors’ Dorm, pensava em como o equilíbrio romântico entre todos os personagens era incrível. Você consegue conduzir um personagem de determinada maneira e fazer com que ele se apaixone. Tudo parece tão natural, sem cinismo. Pensei: “Como alguém tão jovem consegue escrever isso tão bem?”
Kubonouchi: Na época, eu tinha apenas 22 ou 23 anos. No fundo, tudo se resume ao amor pelos personagens. Mesmo quando criava personagens com uma ideia distorcida de amor, como Reiko Shiratorizawa...Reiko Shiratorizawa é a filha do conglomerado Shiratorizawa em Tsurumoku Bachelors' Dorm. Ela tem trejeitos sensuais, mas um rosto extremamente bizarro e frequentemente aparece em situações inesperadas para arrastar o atraente Sugimoto, seu objeto de afeição.
Oda: É incrível que até a trajetória dela pareça merecida.
Kubonouchi: No caso dela, isso aconteceu na época da bolha econômica do Japão. Vi uma garota como ela num bar.
Oda: Sério? (risos)
Kubonouchi: Sim. Isso aconteceu há muito tempo. Ouvi alguém falando sem parar, dizendo coisas como “O amor é…”, do jeito que os personagens falavam nos dramas românticos juvenis populares na época. Olhei e vi uma garota com um formato de rosto muito característico e pensei: “Você é especialista em amor?” Naquele período, eu achava muito desagradáveis as atitudes da época da bolha econômica, então Reiko Shiratorizawa foi uma espécie de resposta irônica a isso. Mas, quanto mais eu a desenhava, mais pensava: “Na verdade, ela é até bonitinha.” Percebi que, se a tratasse como uma esquisitona e lhe desse um final infeliz, os leitores ficariam com um gosto amargo. Então, no meio da história, pensei: “Preciso dar a ela um final feliz.” Eu já sabia que iria formar um casal com ela e Sugimoto, o rapaz bonito.
Oda: Então você foi descobrindo tudo enquanto avançava.
Kubonouchi: Fui ajustando os detalhes ao longo do caminho para garantir que tudo levasse à cena que eu queria no final.
Oda: Acho que um artista comum nunca deixaria de tratar essa personagem como uma piada, mas você conseguiu dar a ela um romance verdadeiro e gratificante, que os leitores conseguem apreciar e aceitar! Só é possível fazer isso quando se ama de verdade os próprios personagens.
Kubonouchi: Sim, exatamente! Acho que tudo se resume a amar os personagens. Acredito que com você seja igual. Quando vejo suas cenas de grande impacto emocional, penso: “Ah, ele deve ter chorado enquanto desenhava isso.”
Oda: Eu choro quando as desenho.
Kubonouchi: Eu sabia. Dá para sentir isso de verdade. Como na cena em que Robin está chorando.
Oda: Quando leio outros mangás ou assisto a filmes, não choro. É muito difícil me fazer chorar. Por isso, não consigo entregar um capítulo até entrar no estado emocional necessário para chorar, seja qual for o motivo — mesmo que seja apenas o cansaço por falta de sono. Se eu não consigo chorar, como posso esperar que os leitores chorem? Penso: “Ainda está faltando alguma coisa”, e continuo redesenhando.
Kubonouchi: Isso é extraordinário.
Oda: Quando tenho uma imagem muito boa na cabeça, mas ela simplesmente não funciona direito na página, é quando dedico bastante tempo aos storyboards. Esse é o verdadeiro obstáculo. Depois que tenho os storyboards, só preciso desenhá-los. Tenho bastante confiança na minha velocidade de desenho, então, mesmo quando não há tempo, digo: “Não, vou conseguir.” A parte difícil é criar a história. Não fico necessariamente esperando a inspiração chegar, mas isso leva tempo.
Kubonouchi: Acho que eu e muitos outros artistas somos assim: pensamos que, se choramos enquanto desenhamos, os leitores também vão chorar. Existe uma maneira de compartilhar emoções por meio do papel e da arte, e, se você desenhar apenas na superfície, eles perceberão. Se pensar “Ah, isso vai fazê-los chorar”, eles não vão se importar. Em vez disso, vão chorar se você pensar: “É aqui que eu vou chorar!” E, quando você pensar “Isto é muito engraçado!”, eles vão cair na gargalhada. Tudo depende do quanto você está mentindo para o papel diante de si. Acho que não mentir para sua arte e para seu mangá é a ferramenta mais fundamental para ter sucesso nesse ramo.
Oda: Entendo.
Kubonouchi: É realmente incrível. Só pelo traço da sua caneta, eu conseguia sentir a emoção que você usava para desenhar esses grandes momentos dos personagens. Foi por isso que precisei me esforçar tanto para captá-la.
Oda: Muito obrigado. Fico feliz em ouvir isso.
Kubonouchi: Eu diria que você desenvolveu seu gosto artístico desde a primeira infância. Ele aparece nesses estilos e silhuetas à moda antiga espalhados pelos muitos personagens que cria, e tudo se combina num design visual coeso e num estilo que é inteiramente seu.
Oda: Obrigado.
Kubonouchi: Você usa uma G-pen para finalizar a tinta das páginas?
Oda: Sim, G-pen.
Kubonouchi: Você consegue um traço muito característico com ela.
Oda: Consigo? Não saberia dizer.
Kubonouchi: Acho que seus traços têm uma personalidade incrível. Há formas que pareceriam extremamente ultrapassadas se fossem desenhadas só um pouquinho diferente, mas você lhes dá muita vivacidade. Percebi isso há algum tempo, usando sua arte como referência para esses comerciais. Acho que você incorporou estilos marcantes de gerações passadas que as crianças de hoje não conhecem, e isso permite criar personagens muito variados, mas ainda unidos pelo “toque Oda”. É por isso que tudo parece tão coeso. Seus personagens têm valores visuais muito distintos quando analisados individualmente, mas você consegue colocá-los todos na mesma imagem sem que nenhum pareça deslocado. Seu estilo é forte assim.
Oda: Obrigado. Devo dizer que tenho muita consciência dessa coesão. Fico pensando em como outros artistas lidam com personagens de aparências diferentes. Do ponto de vista do mangá, é mais divertido ter uma variedade extravagante e maluca, mas tomo muito cuidado para nunca olhar para um personagem e pensar: “Este parece ter saído de outro mangá.” Embora eu não saiba conscientemente como faço esse ajuste.
Kubonouchi: Então provavelmente você faz isso inconscientemente.
Oda: Você acha? Eu ajusto o equilíbrio do personagem até sentir que ele se encaixa.
Kubonouchi: Consciente ou não, você tem essa capacidade. Pode colocar um personagem novo ao lado de um antigo sem que haja discrepâncias estranhas entre eles. Isso acontece porque as regras que regem seu estilo permaneceram consistentes ao longo do tempo. Aposto que seus leitores percebem isso intuitivamente. É o sabor próprio da série. Acho que One Piece é excepcionalmente bem-feito nesse aspecto.
Oda: Obrigado. Quanto a você, sinto que tem uma sensibilidade pictórica, mas não sei de onde ela vem. Diria que a pop art o influenciou?
Kubonouchi: Ah, sim. Sou influenciado por essas coisas desde jovem. Mas também adoro ukiyo-e.
Oda: É mesmo? Você gosta?
Kubonouchi: Simplesmente adoro Katsushika Hokusai e Utagawa Hiroshige.
Oda: Fico surpreso com isso. Mas é verdade que eles são incríveis.
Kubonouchi: Gosto especialmente de Hiroshige, e a maneira como ele construia suas imagens era muito pop para a época. Hokusai é mais do tipo que quer impressionar e deixar você de queixo caído, enquanto Hiroshige é muito delicado, muito pop e muito moderno.
Oda: Acho impressionante você olhar para uma arte tão antiga e descrevê-la como “pop”. Nunca enxerguei as coisas dessa maneira, embora, é claro, também fique impressionado. Uma vez fui a uma exposição de Hiroshige e saí um pouco arrasado. Ele era bom demais.
Kubonouchi: Sim. O traço dele é impecável. Nesse sentido, acho que ele ocupa uma prateleira única no mundo.
Oda: Mas você enxergou aquilo como pop art e não ficou arrasado com a habilidade dele. Imagino que isso seja resultado do seu olhar artístico.
Kubonouchi: Volte e olhe para As Cinquenta e Três Estações do Tokaido. É muito pop.
Oda: É mesmo? (risos) Seu olhar para a arte é realmente extraordinário, Kubonouchi Sensei. Tsurumoku Bachelors’ Dorm pode já ser um mangá antigo, mas continua valendo muito a pena ler hoje. Acho que você tem um estilo universal que nunca envelhece.
Kubonouchi: Obrigado.
Oda: Acho que é por isso que você ainda se conecta com os jovens de hoje. Você tem uma sensibilidade artística atemporal.
Kubonouchi: Obrigado. Nossa, estou com muita vergonha. (risos)
Kubonouchi: Bem… foi ótimo poder sentar e conversar assim com você. Um dos meus amigos mais antigos é um estilista e lê a Weekly Shonen Jump há muito tempo. Há cerca de vinte anos, ele me disse: “Você precisa conhecer essa nova série, One Piece. É fantástica.” Ainda me lembro disso. Normalmente, eu teria dado de ombros e esquecido, mas continuo me lembrando daquela conversa até hoje.
Oda: O que as pessoas dizem é importante. As palavras que chegam mais longe são as dos nossos amigos.
Kubonouchi: É verdade. Às vezes, as palavras mais casuais de alguém próximo carregam a maior dose de verdade. Ouvi tantas histórias incríveis hoje que agora posso voltar para casa, no interior, e me gabar delas para meu amigo (risos). Tenho certeza de que ele vai ficar muito animado.
Oda: Obrigado. Eu também me diverti.
Entrevista traduzida do texto originalmente publicada em One Piece Color Walk Compendium: New World to Wano Volume 3